A terceira fase da Operação Compliance Zero projetou sobre o caso Banco Master uma dimensão que vai muito alem da suspeita de fraude financeira. Nos elementos descritos pela Policia Federal e acolhidos em decisao do ministro Andre Mendonca na PET 15556/DF, aparece uma estrutura paralela de vigilancia, coleta de dados, monitoramento e intimidacao que teria operado em favor do grupo investigado. No centro dessa engrenagem esta Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourao, identificado nas investigacoes pelo apelido de “Sicario” e morto depois de passar pela carceragem da PF em Belo Horizonte.
Nota editorial: este texto se baseia em decisao judicial, pecas de investigacao e reportagens publicadas ate abril de 2026. As suspeitas descritas permanecem sob apuracao e nao equivalem, por si so, a condenacao definitiva dos citados.
Uma estrutura paralela de vigilancia e intimidacao
O que a investigacao chama de “A Turma” nao aparece nos autos como um grupo improvisado de apoio informal. Segundo a PF, trata-se de um nucleo com funcoes definidas, voltado a monitorar alvos, levantar dados sensiveis, acompanhar movimentos de autoridades, jornalistas e ex-colaboradores, alem de agir para conter situacoes consideradas ameacadoras aos interesses do grupo. A presenca, nesse arranjo, de Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, reforca a gravidade institucional do caso: a suspeita nao e apenas de espionagem privada, mas do reaproveitamento de experiencia estatal em favor de uma engrenagem clandestina.
O peso politico do episodio esta justamente ai. Quando uma estrutura privada passa a operar com linguagem, metodo e ambicao tipicos de inteligencia institucional, o dano ultrapassa o conflito empresarial. O que entra em cena e a possibilidade de corrosao das fronteiras entre seguranca publica, influencia economica e intimidacao privada.
Quem era o “Sicario” nas investigacoes
Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourao, de 43 anos, nao aparece nas investigacoes como uma figura lateral. Segundo os elementos reunidos pela PF, ele exercia funcao operacional central dentro de “A Turma”. O apelido “Sicario”, usado nos autos e reproduzido pela cobertura jornalistica, funciona menos como figura de linguagem e mais como marcador da posicao que lhe era atribuida no grupo: a de operador encarregado de transformar informacao em acao, monitoramento em pressao e inteligencia clandestina em instrumento de neutralizacao de adversarios.
Esse ponto ajuda a entender por que sua morte, poucos dias depois da prisao, alterou o eixo do caso. Mourao nao era apenas mais um investigado. Ele ocupava, segundo a apuracao, uma area sensivel da engrenagem: a interface entre coleta de dados, vigilancia direcionada e execucao das tarefas mais opacas do grupo.
O alcance institucional do grupo
Um dos pontos mais graves da investigacao e a suspeita de acesso indevido a sistemas sensiveis do Estado. De acordo com a decisao que embasou a operacao, Mourao teria usado credenciais funcionais de terceiros para consultar e extrair informacoes protegidas por sigilo institucional. A PF afirma que esse metodo permitiu alcancar bases da propria Policia Federal, do Ministerio Publico Federal e ate de organismos internacionais, como FBI e Interpol.
Se confirmada, essa frente do caso exporia uma vulnerabilidade de alcance nacional. Nao se trata apenas de um vazamento pontual, mas da possibilidade de uso continuado de informacao sigilosa para antecipar investigacoes, monitorar desafetos e interferir no ambiente institucional. A crise, nesse sentido, deixa de ser apenas bancaria ou empresarial: ela passa a dizer respeito a capacidade do Estado de proteger suas proprias bases de dados contra a captura por interesses privados.
A morte sob custodia e as lacunas do caso
Mourao foi preso em 4 de marco de 2026, durante a terceira fase da Operacao Compliance Zero. Segundo a versao apresentada pela PF, ele atentou contra a propria vida na carceragem da corporacao em Belo Horizonte e foi levado ao hospital. A morte encefalica foi declarada em 6 de marco de 2026, as 18h55, apos a conclusao do protocolo medico.
O episodio, no entanto, acumulou inconsistencias e zonas de sombra. Um registro do sistema municipal de Belo Horizonte indicou, inicialmente, a data de sepultamento como 8 de fevereiro de 2026, um mes antes dos fatos. A informacao foi depois corrigida para 8 de marco de 2026, mas o erro ajudou a ampliar a desconfianca em torno do caso. Em paralelo, reportagens publicadas em abril de 2026 apontavam que os laudos necroscopico e toxicologico ainda aguardavam conclusao, e que o IML de Minas Gerais chegou a solicitar acesso as imagens da carceragem para finalizar a analise.
Em 7 de abril de 2026, Andre Mendonca negou o compartilhamento dessas informacoes com a CPI do Crime Organizado do Senado. Na resposta, o ministro afirmou que ainda havia diligencias instrutorias pendentes. Na pratica, isso manteve o caso sob sigilo e prolongou a ausencia de uma resposta conclusiva sobre as circunstancias juridicas da morte.
O dinheiro por tras do nucleo de intimidacao
A manutencao dessa estrutura paralela tambem aparece como um dado central da investigacao. Segundo a decisao relatada pela imprensa, Mourao recebia cerca de R$ 1 milhao por mes. Fabiano Campos Zettel e apontado como intermediario desse fluxo financeiro, enquanto Ana Claudia Queiroz de Paiva aparece em mensagens associadas a operacionalizacao dos repasses. No mesmo contexto, o STF determinou o bloqueio de ate R$ 22 bilhoes em ativos ligados aos investigados.
Mais do que o tamanho dos valores, o que chama atencao e a funcao que eles cumprem dentro da narrativa do caso. O dinheiro nao apareceria apenas como produto de um esquema maior, mas como combustivel de uma estrutura dedicada a levantar informacoes, pressionar alvos e dificultar a acao de investigadores e criticos.
O que ainda falta esclarecer
O caso Banco Master segue cercado por sigilo judicial e por uma sucessao de frentes investigativas. A morte de Mourao interrompeu o percurso do personagem apontado como operador-chave de “A Turma”, mas nao encerrou as perguntas centrais do caso. Qual era a extensao real do grupo? Quais acessos indevidos de fato ocorreram? Quem forneceu suporte interno ou externo para essas consultas? E o que ainda pode emergir quando os laudos pendentes forem concluidos?
Tambem continua em aberto o debate sobre alcance institucional do episodio. Se as suspeitas forem confirmadas, a investigacao tera revelado nao apenas um esquema financeiro, mas um metodo de poder: o uso de recursos privados para montar uma estrutura clandestina de vigilancia e intimidacao com impacto direto sobre orgaos do Estado.
As defesas dos citados tem contestado as acusacoes ou sustentado colaboracao com as autoridades, e nao ha condenacao definitiva sobre os fatos descritos aqui. Ainda assim, os elementos ja tornados publicos sugerem que o caso nao pode ser lido apenas como mais um escandalo corporativo. O que esta em jogo e a possibilidade de que dinheiro, acesso e opacidade tenham sido combinados para pressionar instituicoes, monitorar adversarios e deslocar para as sombras uma parte do poder real.




